segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os calendários e o mês de fevereiro de 2011

Respondo aqui a um pedido para que me referisse à medição do tempo ao longo dos tempos. Podendo ser muito extenso o âmbito da proposta, sugeri abordar apenas os calendários. E aqui parece-me uma boa ideia apresentar de forma breve o assunto a partir de uma análise do mês de fevereiro de 2011 em que nos encontramos.
Observemos este mês numa apresentação simples, daquelas que encontramos facilmente em qualquer lado, em calendários com publicidade, apenas com os dias do mês e as iniciais dos dias da semana:
ou assim


Ano 2011? Porquê?
Num país com tradição cristã desde a sua fundação é natural que essa contagem tenha em conta o cálculo do nascimento de Cristo. Por isso também dizemos 2011 depois de Cristo, ou ainda 2011 d.C.. E outras perguntas se podiam aqui fazer: quem, quando e como fez esse cálculo? Uma resposta incompleta é que esse cálculo foi realizado e adoptado como referência muitos séculos depois do nascimento de Cristo.
E de onde veio a ideia de semana e dos nomes dos 7 dias e porquê? Todos os povos usam esses nomes? Numa resposta abreviada podemos dizer que um ciclo de sete dias já era conhecido dos Babilónios, há cerca de 6 000 anos e já nessa altura se percebia que era uma divisão aproximada do mês lunar de 29,5 dias e além disso o número 7 coincidia com o número de astros cujo movimento observavam no céu - Sol, Lua, Vénus, Mercúrio, Marte, Júpiter e Saturno - nessa altura com outros nomes. Influenciaram o povo de Israel e este adoptou o ciclo semanal como uma criação abençoada por Deus. De facto, no primeiro livro da 'Lei de Moisés' que os cristãos também adoptaram como primeiro livro da Bíblia, com o nome de Génesis ou Livro das Origens, narra-se a criação do mundo por Deus em seis dias, tendo descansado ao sétimo (Génesis 1-2) e o sétimo ficou com o nome de 'sábado' porque em hebraico o verbo descansar é 'shâbat'.
Os romanos não tinham esta divisão do tempo mas mais tarde os cristãos adoptaram-na dos judeus e espalharam-na pelo império romano, mudando o dia de descanso para o dia seguinte ao sábado, o Domingo, que quer dizer dia do Senhor, porque foi o dia em que Cristo ressuscitou. Mas a primitiva tradição cristã de dar aos dias da semana o nome de dias santificados: segunda-feira, terça-feira,... só se manteve na língua portuguesa.
Se compararmos os nomes dos dias da semana em várias línguas europeias logo verificamos que os astros babilónicos continuaram a ter prioridade:

l. critão
Feria secunda
Feria tertia
Feria quarta
Feria quinta
Feria sexta
Sabbatum
Dies Dominica
português
Segunda-feira
Terça-feira
Quarta-feira
Quinta-feira
Sexta-feira
Sábado
Domingo
 astros do dia
Lua
Marte
Mercúrio
Júpiter
Vénus
Saturno
Sol
latim
Lunae dies
Martis dies
Mercuri dies
Jovis dies
Veneris dies
Saturni dies
Solis dies
espanhol
Lunes
Martes
Miercoles
Juéves
Viernes
Sábado
Domingo
francês
Lundi
Mardi
Mercredi
Jeudi
Vendredi
Samedi
Dimanche
italiano
Lunedì
Martedì
Mercoledì
Giovedì
Venerdì
Sabato
Domenica
romeno
Luni
Marti
Miercuri
Joi
Vineri
Sambata
Duminica
saxão
Monn’s day
Tiw’s day
Wonden’s day
Thor’s day
Friga’s day
Saterne’s day
Sun’s day
inglês
Monday
Tuesday
Wednesday
Thurday
Friday
Saturday
Sunday

alemão
Montag
Dientag
Mythwoch
Donnerstag
Freytag
Samstag
Sonntag
Mas ainda há mais variedades de nomes, como por exemplo na língua polaca:
polaco
poniedzialek
wtorek
sroda
czwartek
piatek
sobota
niedziela
e traduzindo para português teremos estes nomes para a semana:
polaco
dia depois do descanso
segundo dia
dia do meio
quarto dia
quinto dia
sábado
dia de descanso
não se trabalha

Se acrescentarmos agora aos dias do mês as fases da Lua, os signos e referências da liturgia católica, ficamos com mais informações que não são de todo estranhas:

fevereiro de 2011
Aquário (continuação)

1
T
terça-feira



2
Q
quarta-feira


Apresentação do Senhor
3
Q
quinta-feira
Lua Nova

São Brás  / Santo Anscário
4
S
sexta-feira


São João de Brito
5
S
sábado


Santa Águeda (ou Ágata)
6
D
domingo


Domingo V do tempo comum
7
S
segunda-feira



8
T
terça-feira


São Jerónimo Emiliano
9
Q
quarta-feira



10
Q
quinta-feira


Santa Escolástica
11
S
sexta-feira


Nossa Senhora de Lurdes
12
S
sábado



13
D
domingo


Domingo VI do tempo comum
14
S
segunda-feira


Santos Cirilo e Metódio
15
T
terça-feira



16
Q
quarta-feira



17
Q
quinta-feira


Os sete fundadores da Ordem dos Servitas
18
S
sexta-feira
Lua Cheia

São Teotónio
19
S
sábado

 Peixes
 O Sol entra no signo dos Peixes
20
D
domingo

Domingo VII do tempo comum
21
S
segunda-feira


São Pedro Damião
22
T
terça-feira


Cadeira de São Pedro, Apóstolo
23
Q
quarta-feira


São Policarpo
24
Q
quinta-feira



25
S
sexta-feira



26
S
sábado



27
D
domingo


Domingo VIII do tempo comum
28
S
segunda-feira



A apresentação simples com dias da semana já nos é suficiente para organizar a vida de trabalho e de descanso, para planear as festas e os encontros, os pagamentos em função das receitas, ...
A introdução das fases da lua pode ajudar a recordar os trabalhos do campo mais propícios, como plantações de árvores de fruto,  enxertias, preparação do terreno, flores, e, no mar, antecipar os dias das marés mais fortes, por exemplo.
pormenor do signo dos Peixes na iluminura do mês de fevereiro
do Breviário de Isabel a católica, manuscrito da Biblioteca Britânica, Londres,
editado por M. Moleiro
A indicação da chegada do Sol a um novo signo – os peixes -, recorda tradições muito antigas sobre o carácter dos homens e das mulheres nascidas durante este período, tão antigas como o nome que ficou para o signo. É novamente o calendário a guardar antigas memórias de nomes e uma constante ligação entre os fenómenos celestes e a nossa vida na terra e a alimentação do dia-a-dia.


Ciclo solar, ciclo lunar e de novo o Carnaval

Apresentação do Menino no Templo
Iluminura do Livro de Horas de Dom Duarte
início do século XV - Torre do Tombo
Voltando ao mês de fevereiro podíamos perguntar porque é nos primeiros dias deste mês que se revela a preparação do Carnaval de Torres Vedras e se faz a primeira apresentação temática. A resposta aparece no próprio calendário.
No dia 2 de Fevereiro celebra-se a festa religiosa agora apenas indicada como Apresentação do Senhor, antigamente identificada também como a festa da Purificação de Santa Maria Virgem, dia da Candelária, popularmente associada à bênção das velas de cera que se usarão dentro de casa no resto do ano, cerimónia que se realizava por volta do terceira hora (c. 9 horas da manhã), seguida de procissão com as velas e finalmente a Missa (evangelho de S. Lucas 2:22-40). Este texto termina com uma referência a uma profecia sobre o sofrimento da mãe por causa do que acontecerá ao filho, pelo que também nalguns terras se refere ‘Nossa Senhora das Dores’.
Esta festa é ainda mais um exemplo dos rituais judaicos prescritos no Antigo Testamento (Levítico 12:1-8) e que os pais de João Baptista e Jesus cumpriram com zelo.
E a ela ficou associado um popular provérbio sobre o clima: “Se a Candelária rir está o inverno para vir, se a Candelária chorar está o inverno a acabar.”, isto é, se nesse dia o sol brilhar como quem ri, ainda virá o frio; se esse dia for de chuva o tempo mais difícil está a terminar. Com o mesmo sentido há outro provérbio para o dia seguinte, dedicado a S. Brás : “Dia de S. Brás, a cegonha verás, e se não a vires o Inverno vem atrás.
Com a festa litúrgica da ‘Apresentação do Senhor’ termina o ciclo solar do calendário litúrgico centrada na festa do Natal, e que vai do 1º Domingo do Advento (entre 27 de Novembro e 3 de Dezembro) até ao 40º dia depois da mãe dar à luz, que é o que se recorda a 2 de fevereiro com a ida à sinagoga. Como é claro as festas principais deste ciclo são fixas, sempre na mesma data. Apenas os domingos do Advento se adiantam ou atrasam em função do dia da semana de 25 de Dezembro.
A partir deste dia inicia-se o ciclo lunar da liturgia pascal, um ciclo naturalmente de festas móveis, com todas as principais festividades calculadas a partir da posição da Lua em relação à Terra e ao Sol, pois o domingo de Páscoa continuará a ser o primeiro domingo depois da primeira Lua Cheia, depois do equinócio da primavera a 20/21 de Março. A Lua Cheia nessa condições ocorre este ano no dia 18 de Abril, segunda-feira, o Domingo seguinte, o da Páscoa, será assim a 24 de Abril.
O ciclo lunar da Páscoa avança até à quinta-feira do Corpo de Deus, este ano a 23 de Junho, e, se contarmos com os domingos depois do Pentecostes, encerra com a chegada ao Advento seguinte.
 Carnaval de Torres Vedras 2011
Como o Carnaval, síntese eufórica e memória de um mundo às avessas, também antecede a quarta-feira de Cinzas, início litúrgico da Quaresma, também ele é uma festa móvel, podendo ocorrer entre 3 de Fevereiro e 10 de Março. Este ano temos o exemplo de um entrudo mais tardio, quase no limite, a 8 de Março.
Mas estes cálculos já estavam há muitos séculos resumidos em tabelas incluídas nos missais dos mosteiros e igrejas para nas missas se anunciar com antecedência as festas ao longo do ano.


E então São Valentim? Porquê os santos Cirilo e Metódio?
Outra curiosidade no calendário actual é que nele não encontramos a festa de São Valentim, a 14 de Fevereiro, que aí se fixou desde a Idade Média. De facto, em 1969, essa referência litúrgica foi retirada por dificuldades em identificar documentalmente a que santo de nome Valentim se referia, pois as poucas memórias historiográficas indicam vários mártires com esse nome nos primeiros séculos do cristianismo.
Valentines : vintage holiday graphics
editado por Jim Heimann 


A tradição associada ao santo Valentim não desapareceu, deixou de lado a religião, e foi absorvida nos mais diversos negócios e promoções de marketing.




No lugar dessa referência aparece agora a celebração de dois irmãos gregos, o monge Cirilo e o bispo Metódio, que no século IX evangelizaram as regiões eslavas. Contrariando a tradição de apenas ensinar o cristianismo em hebraico, grego ou latim, usaram as línguas nativas dessas regiões na evangelização e tradução da Bíblia, adapatando o alfabeto grego para essas línguas e acrescentando outros sinais locais, originando o alfabeto “cirílico”, como ainda hoje se diz em homenagem a São Cirilo – usado actualmente na Rússia, Ucrânia, Bielorússia, Bulgária, Macedónia e Sérvia e ainda em línguas não eslavas da Ásia. Em sua homenagem os dois irmãos foram proclamados “co-padroeiros da Europa” pelo papa João Paulo II , em 1980, como em 1964 o papa Paulo VI proclamara São Bento “padroeiro da Europa” .


São Pedro da Cadeira?
No dia 22 aparece a celebração da Cadeira de São Pedro, memória da história primitiva do cristianismo, quando o apóstolo Pedro evangelizou primeiro como bispo de Antioquia, na Ásia Menor, actual Turquia, e depois como bispo de Roma , em Itália, que os cristãos consideraram a sede do bispo de todos os bispos na capital do Império romano, tornando-se assim o primeiro papa da Igreja católica. As igrejas onde os bispos têm a sua cadeira (cathedra em latim) são as igrejas catedrais. A ideia de associar alguém mais digno ou depositário do poder é apresentá-lo sentado numa cadeira e já há muitos milhares de anos antes de Cristo encontramos nas representações de reis ou faraós. Actualmente a festa deste dia recorda a cadeira de São Pedro como bispo e papa, tanto de Antioquia como de Roma .


São Matias
Quando se fala na história dos calendários da reforma de Júlio César no ano 47 a.C. para entrar em vigor a 1 de janeiro de 46 a.C., estabelecendo o ano médio de 365,25 dias, isto é, com 3 anos comuns de 365 dias e de 4 em 4 anos um ano bissexto de 366 dias, o mês de fevereiro tinha já um número par de dias – 28 -, o que para os romanos não era nada propício e alterá-lo estava fora de questão. Quando foi decidido introduzir o 366º dia dos anos bissextos, não querendo alterar nenhum dos meses do calendário, o dia a mais passou a ser uma repetição do 24º dia de fevereiro, que para os romanos no tempo de Cristo se enunciava como o 6º dia antes do dia 1 de março. Não se mudava o mês mas havia mais um dia que não passava da repetição do sexto antes das calendas de março – e esse ano ficou conhecido como ano bissexto.
Quando os cristãos adoptaram o ‘calendário juliano’ também atribuíram a cada dia a memória de um santo, o 6º dia antes das calendas de março, isto é, 24 de fevereiro, passou a ser do dia do apóstolo Matias . Assim, quando os dias do calendário passaram a ser indicados por ordem numérica, em vez do estilo romano, indicava-se que o 366º dia do ano bissexto seria introduzido depois do dia de São Matias. Este tipo de observações ao calendários aparecem escritas em português, no início do Livro de Horas chamado de D. Manuel, que é depois todo ele escrito em latim.
Este significativo dia 24 de fevereiro do calendário juliano, usado pela Igreja católica, foi também o dia escolhido pelo papa Gregório XIII em 1582, para assinar o anúncio da reforma daquele calendário, de acordo com as instruções do Concílio de Trento e mais de acordo com os cálculos astronómicos do ano trópico, entre dois equinónicos da Primavera seguidos, para entrar em vigor a 4 de outubro, quinta-feira, retirando-lhe nesse ano 10 dias, passando o dia seguinte a ser 15 de outubro, sexta-feira. E os anos bissextos deixaram de ser todos os 4 anos; os anos centenários só são bissextos quando divisíveis por 400; assim, 1900 não foi ano bissexto, 2000 foi e 2100 voltará a não ser. Esse é o calendário que ainda hoje usamos e a que podemos chamar ‘calendário gregoriano’.


São Policarpo
Outro santo destacado no calendário litúrgico de fevereiro é São Policarpo, o primeiro bispo e mártir, do século II d.C., de que há memória escritas depois do martírio de santo Estâvão narrado no livro dos Actos do Apóstolos .


Calendários chinês, judaico, islâmico
Como os calendários continuam a guardar memórias da história dos povos do mundo, podemos ainda assinalar como exemplos, neste ano de 2011, o calendário festivo da China que teve o seu dia de Ano Novo a 3 de fevereiro do nosso calendário, sendo esse o primeiro dia do primeiro mês do ano 4709 da era chinesa, ano sob a protecção do Coelho.
E ao longo deste ano podemos encontrar outros dias de Ano Novo diferentes do nosso calendário, como por exemplo para os judeus, que celebrarão este ano o dia de Ano Novo de 5772 depois da criação do mundo, com início ao pôr-do-sol do dia 28 de setembro do nosso calendário, ou os árabes que começarão o Novo Ano de 1433 da Hégira de Maomé ao pôr-do-sol do dia 26 de Novembro.
Estes são dois exemplos de calendários lunares pois todos os meses começam com uma Lua Nova enquanto que o gregoriano é um calendário solar para se manter ao ritmo da chegada anual do Sol ao equinócio da Primavera, o que se designa em astronomia como ano trópico, e cujo valor médio é de 365,242199 dias, uma pequena diferença para o valor médio do ano no calendário juliano que era de 365,25 dias.

pormenor da iluminura para o mês de fevereiro do
Breviário de Isabel a católica, do final do século XV,
da Biblioteca Britânica, Londres, editado por M. Moleiro

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