domingo, 12 de dezembro de 2010

Viagens!...

7  Narrativas 7 Partidas 7 Chegadas 7 Viagens 7 Autores 7 Memórias 7 Encontros 7


1 - 1497 - Álvaro Velho - é o mais provável autor do relato da primeira viagem de Lisboa à Índia e volta, marinheiro e mercador português, natural do Barreiro, que embarcou na nau de Paulo da Gama, irmão do capitão-mor Vasco da Gama. No regresso pela Guiné aí terá deixado a armada para ficar mais alguns anos na terra que já conhecia.


Relação da viagem de Vasco da Gama [1]
Registo 1843 da Biblioteca Escolar




[1497-1498 - 1ª viagem de Vasco da Gama de Lisboa à Índia]


“Em nome de Deus, ámen. Na era de mil quatrocentos e noventa e sete mandou El-Rei D. Manuel, o primeiro deste nome em Portugal, a descobrir, quatro navios, os quais iam em busca da especiaria, dos quais navios ia por capitão-mor Vasco da Gama, e dos outros: dum deles Paulo da Gama, seu irmão, e do outro Nicolau Coelho. [2]
Partimos do Restelo um sábado, que eram oito dias do mês de Julho da dita era de mil quatrocentos e noventa e sete, nosso caminho, que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço, ámen.
Primeiramente chegámos ao sábado seguinte [15.7.1497] à vista das Canárias, e essa noite passámos a julavento [3] de Lançarote; (… )
Ao domingo seguinte [23.7.1497], em amanhecendo, houvemos vista da ilha do Sal (… )
E ao outro dia, que era quinta-feira [27.7.1497], chegámos à ilha de Santiago, onde pousámos na praia de Santa Maria [4] com muito prazer e folgar. E ali tomámos carnes e água e lenha; e corregendo[5]  as vergas dos navios, porque nos era necessário.
(… )
À terça-feira [7.12.1497] viemos na volta da terra, e houvemos vista duma terra baixa e que tinha uma grande baía. O capitão-mor mandou Pêro de Alenquer no batel a sondar se achava bom pouso, pelo qual a achou muito boa e limpa e abrigada de todos os ventos, excepto de noroeste. E ela jaz leste-oeste, à qual puseram nome Santa Helena[6].
À quarta-feira [8.12.1497] lançámos âncora na dita baía, onde estivemos oito dias limpando os navios e corregendo[5]  as velas e tomando lenha. (… )


[Depois do Cabo da Boa Esperança atingem a angra de São Brás [7], o último ponto alcançado por Bartolomeu Dias e assinalado com um padrão, e seguem pelo Oceano Índico]


E à quinta-feira [28.12.1497] pousámos ao longo da costa, onde tomámos muito pescado; e quando veio o sol-posto, tornámos a dar velas e seguir o nosso caminho; e aqui nos ficou uma âncora, [por] que nos quebrou um calabrete [8], com que estávamos ao mar, e daqui andámos tanto pelo mar, sem tomarmos porto que não tínhamos já água que bebêssemos nem fazíamos já de comer senão com água salgada; e para o nosso beber não nos davam senão um quartilho, de maneira que nos era necessário de tomarmos porto. E sendo uma quinta-feira, que eram dez dias de Janeiro, houvemos vista de um rio pequeno e aqui pousámos ao longo da costa; e ao outro dia fomos em os batéis em terra, onde achámos muitos homens e mulheres negros, e são de grandes corpos, e um senhor entre eles; e o capitão-mor mandou sair em terra um Martim Afonso (… ) e outro homem com ele, e eles lhe fizeram grande agasalho [9]; (… ) e há nesta terra, segundo nos pareceu, muito cobre, o qual trazem nas pernas e pelos braços e pelos cabelos retorcidos; e isso mesmo [10], há nesta terra estanho, (… ) Aqui estivemos cinco dias tomando água, a qual nos acarretavam aos batéis aqueles que nos vinham ver. (… ) E nós estávamos ancorados ao longo do mar; e a esta terra pusemos nome Terra da Boa Gente, e ao rio: do Cobre.[11]  (… )


[Na Índia encontram as especiarias que buscavam]


Desta terra de Calecut, que se chama Índia Alta, vai a especiaria que se come em ponente e em levante [12], e em Portugal, e, bem assim, todas as províncias do mundo; assim mesmo (… ) muita pedra preciosa de toda a sorte, (… ); em esta dita cidade há, de sua própria colheita, esta especiaria que se segue: muito gengibre, e pimenta, e canela, posto que não é tão fina como é a de uma ilha que se chama Ceilão, a qual está de Calecut oito jornadas; (… ) E há uma ilha, que chamam Malaca, donde vem o cravo a esta cidade. (… )”



[1] Luís de Albuquerque, (intr. e notas), Relação da viagem de Vasco da Gama, [por Álvaro Velho], Lisboa, Ministério da Educação / Comissão Nacional das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, imp. 1990, 101p., il.
[2] Começa por indicar 4 navios mas apenas 3 capitães; o quarto navio era a nau de mantimentos, comandada por Gonçalo Nunes, criado de Vasco da Gama, e que viria a ser desfeita na Angra de São Brás, distribuindo-se os mantimentos pelas outras 3 que seguiram viagem até ao fim.
[3] Sotavento: o lado do navio oposto àquele donde sopra o vento.
[4] Actual Porto da Praia.
[5] Reparando.
[6] A baía mantém o mesmo nome e situa-se na província do Cabo ocidental, na África do Sul.
[7] Actualmente tem o nome de Baía Mossel / Mossel Bay, onde Bartolomeu Dias chegou a 3 de Fevereiro de 1488.
[8] Cabo de menos diâmetro.
[9] Receberam muito bem, com grandes manifestações de amizade, incluindo dormida.
[10] E da mesma maneira.
[11] A localidade ao pé da foz e o rio têm actualmente o nome de Inharrime e situam-se na província de Inhambane, em Moçambique, 400 km a norte de Maputo.
[12] “Em ponente e em levante” - a poente ou oeste, lugar onde o sol se põe, e a leste, donde se levanta, isto é, por todos os lugares iluminados pelo Sol.
[1] Brunello de Cusatis, O Portugal de Seiscentos na “Viagem de Pádua a Lisboa de Domenico Laffi”, Lisboa, Editorial Presença, 1998, 142 p., ISBN: 9789722323024, Colecção: Diversos; as páginas indicadas são desta edição

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2 - 1656 - Domenico Laffi (1636-?), escritor de peças de teatro e sacerdote italiano, natural de Bolonha, realizou várias peregrinações - Terra Santa, Santiago de Compostela, Pádua e Lisboa - que depois recordou em relatos de viagens editados em Itália. “A viagem de Pádua a Lisboa” foi realizada em Setembro de 1656 e publicada em 1691; recentemente foi editada em português pelo investigador italiano Brunello De Cusatis (1950-) a parte que se refere à passagem por Portugal .


O Portugal de seiscentos 
na "Viagem de Pádua a Lisboa" [1]
Registo 8473 da Biblioteca Escolar 


[Algumas considerações à margem do itinerário português de Domenico Laffi, apresentadas pelo próprio autor]


[41] «Eu, para satisfazer as curiosidades discretas e indiscretas de todos, direi, com mera verdade, ter feito esta viagem, não sei se impelido mais por natural propensão, por talento sujeitado à curiosidade de ver coisas novas, ou por espírito de piedade para o glorioso Santo António de Pádua. Fui àquela cidade para adorar, naquelas sacras cinzas, vivas sementes de eternidade, e recolher copiosa messe de graças. E, com a benevolência do Céu, as minhas esperanças ficaram tão consoladas que, seduzido pelo prazer, resolvi, tendo visto o túmulo dele, ir também a Lisboa para venerar o seu berço, apesar de estar muito longe e não conforme à máxima de Marini, que diz: do nascimento à morte é um breve passo. (… )”


[Entrada em Portugal pelo Alentejo - de Paymogo a Lisboa]


[53] “De Paymogo [2] entra-se no Reino de Portugal. Daí a Aldeia [3], primeiro lugar em território português, são 3 léguas, sempre por bosques sem estradas e sem casas, e quase sem vestígios de caminho, passando por montes, por valões sem água, coisa que mete medo a qualquer viandante.
De Aldeia a Serpa são 3 léguas; este é um lugar grande, delicioso. Aí, como em todo Portugal, as casas são pequenas, isto é, baixas devido ao vento do oeste, e todas com chaminé, ou seja, lareira onde se acende o fogo, decerto a coisa mais bonita delas; estão rodeadas de grandes muros, muito altos, por cima dos telhados, e feitas de várias maneiras e de vária arquitectura, de modo que, de longe, são agradáveis à vista.
De Serpa a Cuba são 5 léguas, sempre por planícies e colinas cultivadas, cheias de casas todas brancas. Depois fomos a Torrão [4], distante 5 léguas, sendo o caminho, como o anterior, cheio de casas, com belos campos cultivados; os habitantes são muito amáveis e caridosos. Torrão é um lugar grande, (… )”


[Descrição de Lisboa]


[58] “Lisboa, cidade grande, metrópole do Reino de Portugal, belíssima e rica, é, na opinião comum, a mais povoada cidade da cristandade, se excluirmos Paris. É considerada por muitos, e com toda a razão, a oitava maravilha do mundo. Foi chamada pelos romanos Julia Felix e, pelos mais antigos, Olíssipo, do nome de Ulisses, seu fundador, segundo dizem, e com razão pode ser denominada a rainha dos mares. Está situada na margem do Tejo, por metade em plano e por metade em altura, com colinas lindas, no meio das quais há muitos vales que rodeiam a planície, até ao rio. As construções velhas valem pouco, os bairros são bonitos, mas muito estreitos e tortos; os edifícios modernos, pelo contrário, são lindíssimos, vendo-se palácios e templos tão altos que parecem competir com as estrelas. A toda a volta vêem-se vilas e grupos de casas de muito conforto. Chega a ter, como refere Linda, 40 paróquias, mas tão cheias de fiéis que durante a procissão do Santíssimo, no ano de 1619, foram contados 3338 confrades.”


[85] “Demasiado longo seria descrever todos os palácios, igrejas e edifícios públicos de Lisboa, e por isso deixo esta incumbência a escritores mais talentosos, que tenham mais tempo para permanecer nesta grande cidade do que eu, pois é preciso muito tempo para percorrê-la e maior inteligência para descrevê-la, porque, como diz o provérbio: «quem não vê Lisboa não vê coisa boa». Pode dizer-se, emblematicamente, que esta cidade é um navio no mar alto, sendo, como já referi, rainha do mar.”


[Viagem para norte de Portugal]


[106] “Depois de nos termos despedido do núncio apostólico, agradecendo-lhe a sua muita amabilidade, partimos de Lisboa a 19 de Setembro. Saímos pela porta norte, rumo a Coimbra, e, andando sempre por uma planície cheia de palácios, jardins e hortas, rodeada de colinas fertilíssimas, chegámos por fim a um sítio a que chamam Loures e que fica a 2 léguas de Lisboa; e depois, sempre por colinas frutíferas, a um outro chamado Torres [5], que dista 5 léguas, onde há um grande convento de São Francisco, de frades observantes [6]. Daí fomos a São Mamede [7], distante outras 5 léguas, e depois a um sítio a que chamam As Caldas [8], que fica só a uma légua. Este sítio — grande, muito bonito, delicioso e frutífero, situado numa linda planície — é assim chamado porque possui banhos de águas quentes para os doentes e tem um hospital para os pobres e quartos para os nobres. Daí fomos a Alcobaça, andando 3 léguas. (… )”
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[1] Brunello De Cusatis,  O Portugal de Seiscentos na “Viagem de Pádua a Lisboa de Domenico Laffi”, Lisboa, Editorial Presença, 1998, 142 p., ISBN: 9789722323024, Colecção Diversos; as páginas indicadas são desta edição.
[2] Pequena localidade espanhola da província de Huelva, na Andaluzia. [A vila foi afectada pelos movimentos militares fronteiriços entre Portugal e Espanha por ocasião da Guerra da Sucessão ao trono de Espanha entre 1701 e 1713]
[3] Passando a fronteira natural do Guadiana caminha para norte até à Aldeia Nova de São Bento [actualmente concelho de Serpa]
[4] Vila que chegou a ser sede de concelho [actualmente é uma freguesia de Alcácer do Sal].
[5] Torres Vedras.
[6] Convento de Santo António do Varatojo.
[7] São Mamede, localidade da freguesia da Roliça, concelho do Bombarral, perto de Óbidos.
[8] Caldas da Rainha e Hospital Termal.

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2 - 1755 - Voltaire, Cândido ou o Optimismo - Voltaire, pseudónimo literário do escritor francês François-Marie Arouet, 1694-1778 ), filósofo, autor de teatro, poesia, romance, conto, ensaios filosóficos e históricos e um importante espólio de correspondência, tornou-se uma figura muito importante do Iluminismo, defensor da liberdade, dos direitos do homem, da tolerância e da justiça. Impressionado, como muitos europeus seus contemporâneos, com o terramoto de Lisboa a 1 de Novembro de 1755, recorda esse terrível acontecimento no livro de ficção, sátira e inteligência, Cândido ou o Optimismo, publicado sob pseudónimo em 1759, e onde assistimos às peripécias de Cândido, da sua amada a menina Cunegundes, do seu antigo mestre de filosofia, o doutor Pangloss, de um marinheiro e de uma velha, e outros personagens, durante uma longa viagem por terras e por mar.


Cândido ou o Optimismo [1]
Registo 6718 da Biblioteca Escolar


[Capítulo V - a embarcação em que seguem é apanhada por uma tempestade e chegam a Lisboa]


“(… ) Quando se recompuseram um pouco, meteram-se a caminho de Lisboa. Traziam com eles algum dinheiro e esperavam matar a fome de que sofriam, já que a sua boa sorte os tinha salvo da tempestade. Porém, mal tinham posto os pés na cidade, chorando a desgraçada norte do seu benfeitor, sentiram a terra tremer-lhe debaixo dos pés; o mar embraveceu-se ainda mais e arrastou os navios que estavam ancorados no porto. Turbilhões de chamas e de cinzas cobrem as ruas e as praças, as casas desmoronam-se, os telhados afundam-se e os alicerces dispersam-se; trinta mil habitantes de todas as idades ficam sepultados nas ruínas daquela opulenta cidade. O marinheiro, entre palavrões e assobios, ia dizendo:
- Isto não vai mal, deve haver por aqui alguma coisa a pilhar.
- Qual poderá ser a razão suficiente deste fenómeno? - dizia Pangloss.
E Cândido gritava:
- Isto é o fim do mundo, o nosso último dia!
O marinheiro corre, intrépido, pelo meio dos destroços; desafia a morte em busca de dinheiro, encontra-o, apodera-se dele, embriaga-se e, depois de cozer a bebedeira, compra os favores da primeira rapariga fácil que encontra, entre as ruínas das casas destruídas, rodeado de mortos e moribundos. Pangloss foi puxar-lhe pelo casaco, dizendo:
- Oh homem, isso não me parece bem! É faltar directamente à razão universal, é uma péssima ocasião para se pôr com essas coisas.
- Vai para o diabo, que eu não estou aqui para ouvir sermões! - respondia o outro. - Eu sou marinheiro, sou de Batávia; em quatro viagens que fiz ao Japão, quatro vezes marchei sobre o crucifixo; vens-me tu agora para aqui com as tuas idiotices da razão universal!
Cândido estava estendido no meio de uma rua, quase coberto de terra e de de destroços, mal ferido pelas pedras que lhe tinham caído em cima. Lamentava-se em voz dolente e rogava a Pangloss que fosse arranjar um pouco de azeite e de vinho, pois a cada instante se sentia expirar.
- Este terramoto não tem nada de extraordinário - respondia Pangloss. - A cidade de Lima sofreu, no ano passado, iguais sacudidelas; mesmas causas, mesmos efeitos: há decerto uma longa veia de enxofre subterrânea, desde Lima até Lisboa.
- Não há nada mais provável; - disse Cândido - mas, pela Virgem Santíssima, trazei-me um pouco de azeite e vinho.
- Como, provável? - replicou o filósofo. - A que chamas tu provável? Sustenho e afirmo que a coisa está demonstrada e certíssima.
Nisto, Cândido perdeu o conhecimento. Mas Pangloss foi buscar um pouco de água a uma fonte ali perto, salpicou-lhe o rosto e fê-lo voltar a si.
No dia seguinte, tendo achado algum alimento no meio das ruínas, puderam adquirir forças para se ocuparem, como muitos outros, em assistir e aliviar os habitantes que tinham escapado à morte. Alguns destes, gratos pela sua caridade, deram-lhes de comer o melhor que lhes foi possível naquelas circunstâncias; todos os convivas estavam tristes e regavam de lágrimas o pão que comiam. Mas Pangloss esforçava-se por consolá-los, assegurando-lhes que as coisas não podiam passar-se de outra maneira.
- Porque tudo isto - dizia ele - é o que há de melhor; pois se há um vulcão debaixo de Lisboa ou nas suas cercanias, é prova evidente de que não pode estar noutro sítio; porque é impossível que as coisas não sejam o que são, atendendo a que tudo está bem.
Um homenzinho vestido de negro, familiar do Santo Ofício, que estava sentado junto dele, tomou a palavra e disse-lhe, com muita cortesia:
- Pelo que transparece no vosso discurso, senhor cavaleiro, vós não deveis crer no pecado original, pois se tudo aquilo que é não pode ser melhor, infere-se que não houve queda, nem castigo.
- Vossa Excelência terá a bondade de perdoar-me, - respondeu Pangloss, ainda mais polidamente - se tomo a liberdade de contradizê-lo. Veja Vossa Excelência, que a queda do homem e a maldição que se lhe seguiu foram dois acidentes de absoluta necessidade, no melhor dos mundos possíveis.
- Necessidade? - disse o de preto. - Então Vossa excelência também não acredita no livre arbítrio?
- Vossa Excelência equivoca-se, ao raciocinar dessa maneira, - acrescentou Pangloss - pois a liberdade pode subsistir juntamente com a necessidade absoluta, porque a vontade determinada…
Quando Pangloss estava no meio da sua frase, o familiar do Santo Ofício fez um sinal ao criado, que lhe estava enchendo um copo de vinho do Porto.”
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[1] Voltaire, Cândido ou o Optimismo, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, 1581 p.

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3 - 1798 / 1799 - Heinrich Friedrich Link  (Poggenhagen, 2.2.1767-Berlim, 1.1.1851), médico de formação, foi professor universitário de Zoologia, Botânica e Química, obtendo uma licença para uma viagem a Portugal patrocinada pelo conde Johann Centurius von Hoffmansegg (1766-1849) que o escolheu para fazer o estudo sistemático da flora portuguesa - obra conjunta, publicada em fascículos entre 1809 e 1840. H. F. Link publicou ainda [princípio do século XIX] os apontamentos e observações pessoais dessa viagem, livro traduzido e editado em 2005.


Notas de uma viagem a Portugal [1]


[Volume 2 - p. 165 » Maio de 1798]


I - Viagem às províncias do Norte.
De Lisboa às Caldas da Rainha


“Em Maio de 1798 deixámos Lisboa com o intuito de pesquisar as províncias do Norte. Dirigimo-nos em primeiro lugar a Torres Vedras e às termas das Caldas.
Os sítios a seguir à parte oriental de Lisboa já enalteci, merecendo no entanto uma referência especial o Campo Grande, um subúrbio de Lisboa, o Lumiar e Carnide. Vêem-se apenas colinas quase ininterruptas, cheias de oliveiras, ao fundo laranjais, junto aos ribeiros prados cheios de carvalhos e choupos, aqui e ali searas. As laranjas do Lumiar são especialmente apreciadas. Encantador é também o vale de Loures onde as colinas se elevam ainda mais e o próprio vale se torna mais amplo. Aqui as povoações sucedem-se umas às outras, pode-se sair de Lisboa e passar por Benfica, Campo Grande, Carnide, Lumiar, caminhando algumas milhas sempre por entre casas, não parecendo que se saiu de Lisboa.
A seguir a Loures a região eleva-se consideravelmente e chega-se à alta serra que desce em direcção a Mafra. É composta por um basalto coberto por calcário e no cimo, do lado norte, surge um arenito compacto de um granulado fino. O primeiro patamar forma uma montanha chamada o Cabeço de Montachique [2]. Depois a região torna-se de novo mais baixa até uma aldeia, a Póvoa [3]. O caminho era ladeado pela azinheira, uma árvore ainda não descrita da Europa do Sul, muito embora claramente se destaque de entre as árvores daquela região pelo seu tamanho e beleza. Aproxima-se do carvalho valentiniano descrito por Cavanilles, mas é maior e tem uma folha muito mais larga. A estrada estava com efeito pavimentada mas era extremamente má, decerto não era consertada há mais de um século, as terras são aldeias extraordinariamente pequenas e miseráveis. Nos arredores da Póvoa vêem-se muitas árvores de fruto, prova de que nos encon[p. 166]tramos numa região alta e fresca. A seguir à Póvoa a serra eleva-se de novo, torna-se deserta e nua, vendo-se quintas apenas aqui e ali. Nesta montanha fica a vila de Enxara com uma bela herdade do conde Redondo. Perto de Torres Vedras as montanhas descem novamente, viaja-se por entre colinas alegres, mas nota-se no pouco cultivo a distância de Lisboa. As colinas compunham-se de um arenito grosso, de vez em quando vê-se basalto e por vezes também camadas de sílex arredondado.
Torres Vedras é uma pequena cidade a sete léguas de Lisboa, situada numa colina onde se encontram as ruínas de um velho castelo. Tem pouco mais de 600 fogos, quatro igrejas paroquiais e três conventos fora da cidade. As igrejas e os conventos dão-lhe um aspecto melhor do que depois se acha. Em tempos foi uma fortaleza famosa, ainda hoje é a sede de um corregimento. A região em redor é agradável e está bem cultivada, em particular cheia de jardins e vinhedos banhados pelo pequeno ribeiro Sizandro que está ladeado de amieiros e salgueiros. De um dos lados, logo recomeçam as montanhas arenosas e os pinhais, enquanto que do outro se avistam alegres colinas calcárias cobertas de mato. No sopé das mesmas brota uma fonte tépida que contém um pouco de anidrido carbónico, tendo-se também aqui encontrado carvão mineral numa camada de argila [4].


[Observações sobre a alimentação]


[p. 118] “Os portugueses alimentam-se maioritariamente de carne e peixe, gostam menos de legumes. O pão em Lisboa é mau em quase todo o lado, geralmente de farinha de trigo, mais raramente de milho, nunca de centeio. Azenhas não se vêem, sendo mais frequentes os moinhos de vento que, em vez de uma asa, são impulsionados por quatro velas triangulares esticadas, dando às colinas à volta de Lisboa um aspecto singular. As batatas não são aqui ainda cultivadas, importam-se de Inglaterra e da Irlanda. Em vez disso cultivam-se às vezes Helianthus tuberosus, em português batatas vermelhas, que não são tão nutritivas. Em Março comem-se já as novas ervilhas verdes e feijões, mas nestas terras quentes não são tão gostosas como na Alemanha, mantendo sempre qualquer coisa de seco, não muito saboroso. Feijão verde, bróculos e couve-flor vêem-se com frequência e além disso encontra-se também alface e chicória, mas outros tipos de couve são mais raros e a couve lombarda não se chega mesmo a encontrar. O grão-de-bico (Cicer arietinum, garbanzos dos espanhóis), principal alimento dos espanhóis e decerto preferível às ervilhas secas, é muito pouco cultivado ao redor de Lisboa. A gente do povo come tremoços (Lupinus albus) com uma frequência invulgar, semeiam-se nos baldios, ensopam-se as sementes durante algum tempo em água corrente para lhes tirar o amargo e depois cozem-se. Nos mercados, procissões, touradas e ocasiões semelhantes cozem-se mas são vendidos frios, as gentes do povo costumam então metê-los nos bolsos e vão-nos comendo. Têm apenas um sabor trivial a farinha, mas são muito baratos. O arroz é além disso uma comida muito habitual e popular em todas as classes, em Portugal como em Espanha, vem em grandes quantidades do Brasil e é muito barato. No Reino é apenas cultivado em uns poucos de sítios e não abundantemente, como por exemplo sucede às vezes nas regiões pantanosas da província do Alentejo, nas margens do Mondego e do Vouga. As abóboras são comidas frequentemente e com gosto, da parte interior fibrosa de uma variedade de forma oblonga é feita com açúcar uma compota que é usada como doce, sendo este geralmente muito bem confeccionado em conventos de freiras.
[p. 119]
(… ) Os peixes são o alimento do homem do povo e o petisco dos nobres. Ambos comem o bacalhau seco e salgado em grande quantidade que os ingleses vendem anualmente a Portugal por 1 milhão e 250 mil táleres. Existem armazéns enormes deste peixe, que nos dias da Quaresma chega às mesas mais pobres e mais nobres. Em virtude da guerra entre a Espanha e Inglaterra, uma grande quantidade deste peixe era naquela época enviada por terra de Portugal para Espanha. O bacalhau simplesmente seco, na Alemanha o mais vulgar (peixe-pau), não é assim muito habitual em Portugal. Um outro peixe que se apanha em grande quantidade na cozinha portuguesa é a sardinha (Cluppea sprattus Linn.)[5], alimento, bálsamo e especiaria dos pobres e muitas vezes também utilizada na engorda dos porcos. Pão, vinho e uma sardinha constituem o almoço do soldado vulgar, do jornaleiro e de semelhantes gentes do povo. Vi muitas vezes mendigos que esfregavam o pão com uma sardinha para lhe dar algum gosto e davam-no aos filhos. Se a pesca fosse devida e convenientemente explorada, este peixe poderia substituir o bacalhau e Portugal podia ainda por cima lucrar [p. 120] extraindo óleo de peixe. (… )”
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[1] Link, Heinrich Friedrich, Notas de uma viagem a Portugal e através de França e Espanha, tradução, introdução e notas de Fernando Clara, Lisboa, Biblioteca Nacional, 2005, [1ª ed], xxx, 308 p.: [8] p. il., color., ISBN 972-565-404-8 / 978-972-565-404-0, Colecção Textos BN, as páginas referidas são as desta edição.
[2] Cabeço de Montachique, localidade situada na fronteira dos concelhos de Loures e Mafra, com nascentes de águas terapêuticas identificadas no século XVIII e comercializadas no início do século XIX; ali se levantou um importante reduto da 2ª Linha das Linhas de Torres Vedras; hoje possui um Parque Municipal, com património histórico e natural.
[3] Póvoa da Galega, localidade da freguesia do Milharado, concelho de Mafra.
[4] Referência à nascente depois transformada em termas - dos Cucos.
[5] Nota do autor: Nesta classificação sigo por agora Brünniche e Vandelli, muito embora creia que este peixe dos mares do Sul não é exactamente igual à anchova nórdica. 

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5 - 1832 - Almeida Garrett - Viagens na minha terra - publicado primeiro em folhetins no periódico 'Revista Universal Lisbonense', foi editado em livro em 1845/1846; actualmente também disponibilizado em ficheiro electrónico por várias editoras, p. ex:
http://www.gutenberg.org/ebooks/24319 ou www.portoeditora.pt/bdigital/pdf/NTSITE99_ViagMinhaTerra.pdf


Viagens na Minha Terra
Registo 4091 da Biblioteca Escolar




[O Café do Cartaxo]


"Fazem ideia do que é o Café do Cartaxo? Não fazem. Se não viajam, se não saem, se não vêem mundo esta gente de Lisboa! E passam a sua vida entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de São Carlos como hão-de alargar a esfera de seus conhecimentos, desenvolver o espírito, chegar à altura do século?
Coroai-vos de alface, e ide jogar o bilhar, ou fazer sonetos à dama nova, ide, que não prestais para mais nada. Meus queridos Lisboetas; ou discuti os deslavados horrores de algum melodrama velho que fugiu assobiado da “Porte Saint-Martin” e veio esconder-se na Rua dos Condes. Também podeis ir aos touros - estão embolados, não há perigo…
Viajar?... Qual viajar! Até à Cova da Piedade, quando muito, em dia que lá haja cavalinhos. Pois ficareis alfacinhas para sempre, cuidando que todas as praças deste mundo são como a do Terreiro do Paço, todas as ruas como a Rua Augusta, todos os cafés como o do Marrare [2].
Pois não são, não: e o do Cartaxo menos que nenhum.
O café é uma das feições mais características de uma terra. O viajante experimentado e fino chega a qualquer parte, entra no café, observa-o, examina-o, estuda-o. E tem conhecido o país em que está, o seu governo, as suas leis, os seus costumes, a sua religião.
Levem-me de olhos tapados onde quiserem, não me desvendem senão no café; e protesto-lhe que em menos de dez minutos lhe digo a terra em que estou se for país sublunar.
Nós entrámos no Café do Cartaxo, o grande Café do Cartaxo; e nunca se encruzou turco em divã de seda do mais esplêndido harém de Constantinopla com tanto gozo de alma e satisfação de corpo, como nós nos sentámos nas duras e ásperas tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo.
Em poucas linhas se descreve a sua simplicidade clássica: será um paralelogramo pouco maior que a minha alcova; à esquerda duas mesas de pinho, à direita o mostrador envidraçado onde campeiam as garrafas obrigadas de licor de amêndoa, de canela, de cravo. Pendem do tecto, laboriosamente arrendados por não vulgar tesoura, os pingentes de papel, convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas.
Reina uma frescura admirável naquele recinto.
Sentámo-nos, respirámos largo, e entrámos em conversa com o dono da casa, homem de trinta a quarenta anos, de fisionomia esperta e simpática, e sem nada de repugnante vilão ruim que é tão usual de encontrar por semelhantes lugares da nossa terra.
- “Então que novidades há por cá pelo Cartaxo, patrão?”
- “Novidades! Por aqui não temos senão o que vem de Lisboa. - Aí está a “Revolução” [3] de ontem …”
- “Jornais, meu caro amigo! Vimos fartos disso. Diga-nos alguma coisa da terra. Que faz por cá o…”
- “O mestre J. P., o “Alfageme”?
- “Como assim o Alfageme?”
- “Chamam-lhe o Alfageme ao mestre J. P.: pois então! Uns senhores de Lisboa que aí estiveram em casa do sr. D. puseram-lhe esse nome, que a gente bem sabe o que é; e ficou-lhe, (… )”
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[1] Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra - introdução por Maria Ema Tarracha Ferreira; capa: Luiz Duran, Lisboa : Editora Ulisseia, 1987, 4ª ed, 254, [2] p. 19 x 13 cm
[2] Marrare - Nome do famoso café localizado no Chiado (na actual Rua Garrett), famoso à época, também conhecido como “Marrare do polimento” (1819-1866) por ter o interior forrado com madeira polida e que fechou as portas quando o empresário morreu; na verdade havia em Lisboa vários cafés com esse nome fundados pelo napolitano António Marrare, empresário do Teatro de São Carlos (1825-1828).
[3] “Revolução de Setembro” - jornal fundado em 1840 e que teve grande influência como opositor ao governo de Costa Cabral, apoiando depois, o movimento regenerador.

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6 - 1853 - Henriques Nogueira - de Lisboa a Inglaterra
José Félix Henriques Nogueira (Bulegueira, Dois Portos, 15.1.1835 - Lisboa, 23.1.1858) fez 28 anos a 15 de Janeiro de 1853.
Decidiu então planear uma viagem ou “visita de estudo” a Inglaterra, então na vanguarda da revolução industrial, com o objectivo de visitar e conhecer de perto instituições que pudessem servir de modelo para reformas em Portugal.
Marca a passagem para o vapor “Madrid” que daí a dois meses faria escala em Lisboa. O paquete fundeou ao largo do Cais do Sodré, donde partiam os escaleres com os passageiros para bordo do navio.


Obra Completa de José Félix Henriques Nogueira : tomo II [1]
Registo 4373 da Biblioteca Escolar




[Partida do Caís do Sodré, em Lisboa]


“Seriam sete horas da manhã do dia 28 de Março, quando eu, acompanhado de minha mãe, desci ao Cais do Sodré, a fim de embarcar no paquete, que seguia escala para Inglaterra. O tempo estava desabrido e ameaçador. Nuvens negras toldavam o horizonte, e, a espaços, despediam fortes chuveiros. O Tejo, açoitado por ventos rijíssimos, saía do seu habitual remanso, e balouçava, em suas águas lodacentas, os frágeis escaleres que então o sulcavam. A praça jazia deserta, e as portas fechadas as mais delas. Apeámo-nos. Daí a pouco chegaram um dos meus mais próximos parentes e dois dos meus mais oficiosos amigos, que, apesar da inclemência atmosférica, quiseram acompanhar-me ao “bota-fora”.
A vista daquele céu todo luto, e a aspiração daquela brisa toda gelo contristavam-me o coração, já oprimido por encontrados e penosos sentimentos. Ia deixar o que tinha de mais caro sobre a terra: ia avivar, talvez, ou abrir para sempre mal extintas chagas… Mas era mister partir. Beijei minha mãe, que com as lágrimas nos olhos me seguiu até ao cais; abracei o meu bom parente e dedicados amigos, e saltei no bote. Chovia. Quatro vigorosos remadores começaram a cortar a corrente, não sem dificuldade. O jogar violento da pequena embarcação começou de encobrir-me, e pouco depois perdi de vista o resumido, mas interessante grupo, que para mim concentrava a Pátria com as suas afeições e com as suas saudades, com as suas tristezas e com as suas esperanças. Abordámos finalmente o alteroso Madrid. Tirado o meu saco de viagem, pagos os barqueiros do preço estipulado e da sua exigência adicional “para uma gota” subi a escada do magnífico vapor, e notei em tudo o que me cercava feições características e inteiramente novas, sobressaindo entre elas um cheiro particular e não desagradável, que à falta de melhor e mais exacta qualificação, denominarei o “cheiro inglês”. (… )


[A chegada às Ilhas Britânicas fez-se no porto de Southampton.
Daí Henriques Nogueira seguiu em comboio até à estação de Waterloo Station já em Londres. Nesta cidade demora-se várias semanas, passeando, visitando Museus e Institutos, praças, Jardins (Zoológico e Botânico), exposições, indo ao Teatro e a concertos, observando os bailes públicos e a vida do dia-a-dia de que ia fazendo apontamentos diários que mais tarde seriam publicados ...
Uma das interessantes visitas que descreve é a uma das muitas “Casas de Trabalho” – “Workhouse”– destinadas aos pobres, órfãos ou incapazes de se sustentarem.

No capítulo VII das suas Recordações de viagem descreve a Casa de Trabalho de St. MaryleBone [nesse ano gerida pela paróquia], cuja ideia recuava a 1730 e seria construída em 1755.]

[Casa de Trabalho de St Marylebone /St Marylebone]





[Planta dos edifícios construídos entre 1752 e 1792]


[Encontro com o director e visita aos refeitórios]


“(… )À hora em que entrei estava-se servindo o jantar em alguns refeitórios. As rações distribuídas em pratos de folha-de-flandres eram abundantes. Constavam de 2 a 3 pedaços de carne cozida e de 4 ou 5 batatas e de um pedaço de pão. Cada asilado tem por dia 12 onças de pão, e faz de despesa por semana, termo médio, 5 shillings. Começámos a visita pela secção das raparigas dos 7 aos 15 anos. Estavam à mesa numa alegre e asseada sala. Levantaram-se todas, e à proporção que passávamos por elas, faziam-nos suas mesuras. Já se sabe, eu participava destes sinais de deferência à sombra do meu autorizado introdutor. (… )”


[Londres: Casa de Banho e Lavagem - Bath’s and washing house]


“Um dia descendo a longa Tottenham Court Road vi na esquina de Great George Street, um letreiro que dizia: Bath’s and washing house [Casa de Banho e Lavagem]. O desejo de conhecer o expedito processo, pelo qual se obtém roupa lavada em poucas horas e geralmente de um dia para o outro, excitou-me a curiosidade de entrar, e com efeito entrei. O edifício é vasto, mas construído com a maior economia. Divide-se em duas secções: a dos banhos e a da lavagem. (… )
A secção da lavagem compreende várias séries de pequenos tanques, estufas, e mesas de engomar. Cada lavadouro é repartido em dias caixas, onde se faz correr água quente ou fria. As lavadeiras trabalham de pé. Para enxugar a roupa usam metê-la num cilindro crivado, que, movido com grande velocidade, expele dos tecidos, em virtude da força centrífuga, quase toda a água. O manejo da máquina é custoso, mas em 8 ou 10 minutos estão meio enxutas 15 ou 20 peças. As estufas em que acabam de secar a roupa são ao modo de armários com portas de correr. (… ) O estabelecimento é mui concorrido, e os preços são excessivamente módicos. Por duas horas de lavagem paga-se 2 pennies, e 1 penny pelo mesmo tempo de enxaguamento e engomação.”
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[1] J. F. Henriques Nogueira, Obra Completa de José Félix Henriques Nogueira : tomo II, ed. organizada por António Carlos Leal da Silva, Lisboa : Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1979, [1ª ed], 425, [12] p. : il. 21 cm, Colecção Obra completa, vol. 2



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7 - 1933 - Fernando Pessoa


Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


Poesias de Fernando Pessoa, ‘Viajar, perder países’ (datado de 20.9.1933)


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Outras viagens


- 1537 / 1554 - Peregrinação de Fernão Mendes Pinto - acontecimentos vividos entre 1537 e 1554, manuscrito entre 1570 e 1573, 1ª edição póstuma em 1614
- 1958 - Caatinga e Terra Caída de Vitorino Nemésio, recordações da passagem pelo Brasil em 1958, publicada em 1968
- 2008 - A viagem do elefante de José Saramago - terminado e editado em 2008, conta a viagem, iniciada em 1551 em Lisboa, até Viena de Áustria, de Salomão, um elefante indiano oferecido pelo rei D. João III e sua mulher, Catarina de Áustria, como prenda de casamento ao primo o arquiduque Maximiliano da Áustria, herdeiro do Sacro Império Romano-Germânico, e genro de Carlos V de Espanha, que se afirmava "nem católico, nem protestante, mas cristão".
- 1928 / 1930 - Emigrantes / A selva, ambos de Ferreira de Castro (1898-1974), emigrante no Brasil de 1910 a 1919


- Cinco semanas em balão, de Júlio Verne
- Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes
- Caderno Afegão, de Alexandra Lucas Coelho
- O céu sob a Terra, de Ettore Perozzi
- Depois daquela viagem, de Valéria Piassa Polizzi
- As mulheres e as cidades, de Augusto de Castro
- Não te deixarei morrer, David Crockett, de Miguel de Sousa Tavares
- Nos passos de Magalhães, de Gonçalo Cadilhe
- O ouro dos sonhos, de José Maria Merino
- Nárnia - a viagem do Companheiro da Alvorada, de C. S. Lewis
E outros…


No átrio da Biblioteca Escolar, para além da vitrina com sugestões de livros de viagens para as Férias do Natal, encontra-se uma exposição da Biblioteca Municipal 
-Cidades para visitar com um livro debaixo do braço-

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