Imaginemos que!
… há 200 anos, em Julho de 1810, caminhávamos até à Academia Real das Ciências de Lisboa para observar os mapas do mundo ali existentes. Podia acontecer até que nos cruzássemos, sem nos conhecermos, com o eminente naturalista Domenico Vandelli (1735-1816), membro da Academia e criador do Real Jardim Botânico da Ajuda, italiano de nascença, que veio trabalhar em Portugal como professor universitário a convite do Marquês de Pombal [em 1764], e que fez 75 anos há dias. Este professor tem-se manifestado abertamente pela cedência às intenções imperiais francesas, apesar da 1ª invasão com Junot ter destruído a maior parte das suas colecções botânicas do Jardim da Ajuda em 1808. Já tínhamos sofrido duas invasões francesas e o general inglês Wellesley comandava a defesa de Portugal com um exército de portugueses e ingleses na guerra que os opunha a Napoleão, e, quando se esperava uma nova invasão, tais ideias contrariavam o enorme e muito duro esforço de guerra. A ira de Wellesley arrastou pois Vandelli a julgamento, com outros simpatizantes do imperador francês, que acabaram na prisão e levados para um exílio forçado na Ilha da Madeira. Uma história que será recordada como a “Setembrizada” [Setembro de 1810].
Imaginemos então que observámos os mapas ou globos terrestres da época! Veríamos que quase todo o mundo conhecido já ali se encontrava desenhado, com linhas de costa bastante fiáveis. Mas, olhando mais em pormenor para as nações e as fronteiras dos países, encontraríamos muitas diferenças.
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| Mapa da Europa impresso no ano de 1810 pela editora Longmans, Green & Co., de Londres, Nova Iorque e Bombaim |
Viena de Áustria, cidade e capital dos territórios da dinastia dos Habsburgos, era um centro cultural e de música erudita celebrada por uma sequência de compositores como Mozart, Haydn e Beethoven.
Um contemporâneo das invasões foi o compositor alemão Ludwig van Beethoven.
| compositor alemão Ludwig van Beethoven (1770-1827) |
para ouvir o 1º andamento da 3ª sinfonia de Beethoven clicar no seu nome por baixo da imagem
A palavra Bonaparte aparece escrita na partitura manuscrita. Beethoven inspirava-se no primeiro cônsul Napoleão Bonaparte (o general Napoleão) que admirava como herói e símbolo da mensagem universal da revolução francesa. Beethoven queria compor em música a sua paixão pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, consagrados depois na constituição dos direitos do Homem, e em muitas leis e códigos publicados nos anos seguintes. Quando Napoleão se auto-coroou imperador, o compositor emocionou-se com a contradição e decepção do seu herói, riscou Bonaparte da dedicatória e escreveu ao lado “A um grande homem”. Esta sinfonia também é muitas vezes mais conhecida pelo subtítulo “Sinfonia Heróica”.
Há 200 anos - As Linhas de Torres Vedras
Quando falamos em Linhas de Torres Vedras estamos a referir-nos a uma série de fortes, fortins e redutos formando duas linhas de defesa a norte de Lisboa entre o Tejo e o Atlântico, uma terceira em volta do forte e da praia ao lado do forte de São Julião da Barra para permitir o embarque inglês, em caso de derrota, e ainda uma quarta na margem sul para proteger esse embarque. A ideia foi desenvolvida em 1809 pelo general inglês Sir Arthur Wellesley, Lord Wellington, que ficou a comandar as forças militares inglesas que chegaram em 1808 para ajudar Portugal e Espanha a frustrar os planos de invasão e de anexação da Península Ibérica pelos exércitos de Napoleão, numa sequência de 3 grandes movimentos militares que designamos habitualmente com o título de “Invasões Francesas”.
Como os povos e territórios envolvidos nestas campanhas militares foram os da península ibérica também encontramos para estas invasões a designação de “Guerra Peninsular”( 1807-1814), embora os espanhóis prefiram a designação de “Guerra da Independência”.
Depois de duas invasões frustradas em 1807 e 1809, a disposição dos exércitos de Napoleão em Espanha convencem Wellington de que está em preparação novo plano de invasão francesa até Lisboa e de que é necessário elaborar um plano de defesa que combine a eficácia com um reduzido número de baixas. A sua estratégia está definida no célebre memorando ao engenheiro Fletcher a 20 de Outubro de 1809. Duas semanas depois, a 3 de Novembro já estão a ser requisitados os primeiros milhares de trabalhadores portugueses para essas obras de defesa. Era o princípio da construção das “Linhas de Torres”.
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| Mapa com as Linhas de Torres Vedras e a distribuição das forças francesas a norte delas |
Quase um ano depois já estavam a ser preparados 126 pontos, cobrindo cerca de 88 km pontos de defesa - fortes, redutos, fortins - estabelecidos em pontos altos e ligados por estradas na retaguarda - de modo a que cada um funcionasse com autonomia, mas de onde ao mesmo tempo se pudessem observar e controlar os espaços entre o que estavam logo à direita e à esquerda. Não formavam uma muralha contínua mas são ainda hoje consideradas as maiores linhas de defesa alguma vez construídas e usadas na história das guerras.
A maior intensidade dos duros trabalhos nessa série de fortificações deu-se em 1810, a partir de Fevereiro.
O Exército de Portugal, comandada pelo general Massena, dirige-se para Lisboa a partir do centro de Espanha, assegurando um ponto de protecção em Ciudad Rodrigo. Em Julho avança para conquistar a praça fortificada de Almeida, na fronteira, que acaba por se render mais depressa que o esperado por ambos os lados. O percurso será depois pela Beira Alta, até Coimbra. O exército anglo-luso, chefiado por Wellesley, tenta atrasar o avanço fazendo-lhe frente no Buçaco, cuja batalha acontece a 27 de Setembro. Wellesley segue logo a seguir para as fortificações das Linhas de Torres, com as populações, numa migração terrível para trás das Linhas, continuando muitos para Lisboa e para a margem sul do Tejo.
A 10 de Outubro de 1810 os dois exércitos observam-se pela primeira vez separados pelas Linhas e o exército francês é obrigado a parar e reconhecer a dificuldade em ultrapassar o obstáculo “desconhecido”, a que se acrescentavam dificuldades de comunicação, de alimentos, de abrigo e de cuidados para os doentes. Massena ainda espera apoio mas, um mês depois, em Novembro de 1810, acaba por começar a recuar para a Beira e finalmente, já em 1811, atravessa a fronteira para voltar a França, sempre perseguido de perto pelas forças militares inglesas e portuguesas. Faz sentido assim que seja neste ano de 2010 que se centrem as múltiplas iniciativas para recordar as Linhas de Torres, as investigar e publicitar com muitos e novos elementos e em diferentes perspectivas, incluindo obras de protecção de património histórico, centros de interpretação para quem percorre o nosso país, exposições e edições de investigações novas.
A 10 de Outubro de 1810 os dois exércitos observam-se pela primeira vez separados pelas Linhas e o exército francês é obrigado a parar e reconhecer a dificuldade em ultrapassar o obstáculo “desconhecido”, a que se acrescentavam dificuldades de comunicação, de alimentos, de abrigo e de cuidados para os doentes. Massena ainda espera apoio mas, um mês depois, em Novembro de 1810, acaba por começar a recuar para a Beira e finalmente, já em 1811, atravessa a fronteira para voltar a França, sempre perseguido de perto pelas forças militares inglesas e portuguesas. Faz sentido assim que seja neste ano de 2010 que se centrem as múltiplas iniciativas para recordar as Linhas de Torres, as investigar e publicitar com muitos e novos elementos e em diferentes perspectivas, incluindo obras de protecção de património histórico, centros de interpretação para quem percorre o nosso país, exposições e edições de investigações novas.
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| Cristina Clímaco, As Linhas de Torres Vedras: invasão e resistência (1810-1811) |
Na nossa Biblioteca podemos encontrar vários documentos sobre este assunto:
- As Linhas de Torres Vedras: construção e impactos locais, André Filipe Vitor Melícias,
- As linhas de Torres Vedras: invasão e resistência (1810-1811), Cristina Clímaco,
- Guerras peninsulares: roteiro histórico,
- As Linhas de Torres Vedras, A. H. Norris e R. W. Bremner,
- História militar e da Guerra – Turres Veteras V,
- A guerra peninsular – Turres Veteras XI, coord. Carlos Guardado,
- As linhas de Torres Vedras – Turres Veteras XII, coord. Carlos Guardado da Silva,
- Memória das ‘invasões francesas’ em Portugal, Tereza Caillaux de Almeida.



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