Há 200 anos, o dia 11 de Novembro foi um Domingo, o 2º de Novembro, [e a 22ª Dominga depois do Pentecostes desse ano de 1810] e como tal em Torres Vedras era tradição realizar-se a procissão do Patrocínio de Nossa Senhora, partindo da igreja de São Pedro para a de Santa Maria, com a presença do presidente e membros da Câmara. Como toda a região se encontrava em alerta tenso e silencioso com o exército francês ainda por aqui, frente às Linhas de Torres Vedras, o mais provável é que não se tenha realizado a procissão, apesar do sentimento de urgência da oração e do patrocínio de Maria.
A noite foi de Lua Cheia.
Há um ano o Presidente da República patrocinou a cerimónia oficial das Comemorações dos 200 anos das Linhas de Torres Vedras que este mês vão ser encerradas. De facto, em novembro de 1810 o General Massena, comandante do exército francês, já preparava o recuo das posições mais avançadas que se revela a 14 de Novembro, passando o quartel-general para Santarém, e, nos dias seguintes, o exército luso-britânico mantém a pressão observando os movimentos franceses de perto, e começando a avançar a partir de Alhandra. O general Wellington sai das posições atrás das linhas e muda o seu quartel-general para perto do Cartaxo.
Em Novembro de 1810, a sorte das invasões francesas começava a mudar também por causa dos planos de Wellington. Por outro lado, a 30 de Novembro passam 203 anos da chegada da 1ª invasão com o general Junot a entrar numa Lisboa aberta, sem conseguir prender a família real mas pôde observar as naus ainda na foz do Tejo, por causa do mau tempo. Os meses de Novembro de 1807 e de 1810 foram meses de muito mau tempo em terra e no mar.
O dia 11 de Novembro do nosso calendário está associado, há mais de 16 séculos, a festas religiosas e populares em nome de São Martinho.
Porquê?
Em primeiro lugar porque São Martinho, Bispo de Tours, foi enterrado numa pequena igreja dessa cidade do império romano, na Gália (França), no dia 11 de Novembro do ano 397. Ele morrera com cerca de 80 anos já no dia 8 de Novembro, num espécie de mosteiro para eremitas que reunira em Candes, um local ermo e sossegado, longe da cidade, vários quilómetros em direcção à foz do rio Loire.
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| Iluminura medieval do enterro de São Martinho, bispo de Tours, com os anjos levando a alma aos céus |
Durante a viagem que durou 3 dias, o mau tempo e o frio deram lugar a um renascimento das plantas e flores nas margens do rio e aos cantos dos pássaros, como se fosse um verão, ainda hoje chamado “verão de S. Martinho”, às vezes. O seu túmulo rapidamente se tornou venerado e local de peregrinações. O facto da cidade Tours estar desde a Idade Média no caminho para Santiago de Compostela também terá contribuído para a sua veneração popular se espalhar.
A fama das suas virtudes e santidade espalhou-se a partir de Tours, por toda a cristandade e, em boa medida graças à biografia - Vita Martini -, escrita pelo seu companheiro amigo e eremita Sulpício Severo.
Martinho da Panónia
Por volta do ano 316 ou 317, nascera o menino a muitas e longas milhas dali, num acampamento militar romano situado na fronteira leste do império frente às tribos germânicas, em Sabaria, na província romana da Panónia Superior, actualmente conhecida como Szambatkely, na Hungria, junto à fronteira com a Áustria. Essa terra e a sua feira aos sábados estavam associadas à "rota do âmbar" entre o Mar Báltico e o Mediterrâneo. Seu pai era oficial do exército e talvez lhe tenha posto o nome de Martinho para recordar o deus romano da guerra - Marte.
A família regressa a Itália, ele e um irmão estudam na cidade de Pavia, aí Martinho conheceu a religião cristã e, contrariando a vontade da família, inscreveu-se como catecúmeno, isto é, como candidato ao baptismo, aos 10 anos.
Aos 15 entrou naturalmente para o exército, como seu pai fizera. É durante os 10 anos seguintes de vida militar que ocorre o encontro com um pobre faminto e nu, na cidade de Amiens, onde fazia a ronda nocturna já como oficial do acampamento militar, numa altura de frios intensos que já tinham causado a morte de muita gente, crianças, adultos e velhos. Não tendo ninguém comida ou roupa para socorrer o pedinte, é o próprio oficial, perante os soldados que comandava, que decide cortar e repartir metade da enorme capa - a clâmide - típica do uniforme oficial romano. Segundo Sulpício, Martinho recebeu em sonhos a visita de Cristo, coberto com a metade da capa, que falava com os anjos dizendo:
“Aqui está Martinho, que apesar de ser apenas catecúmeno, me cobriu com a sua capa.”
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| Martinho partilha a capa com um mendigo Pormenor de um fresco do século XII, Museu de Arte da Catalunha, Barcelona |
Nessa mesma cidade de Amiens receberá o baptismo.
Por volta do ano 339, porque tinha outros projectos, pede a dispensa do exército, dizendo: “Eu sou um soldado de Cristo; não estou disponível para fazer a guerra”.
É então que segue para Poitiers onde escuta o bispo Hilário, ainda e sempre com o desejo de ser eremita, e este ordena-o diácono / sacerdote.
Martinho bispo
Quando a diocese de Tours fica vaga, é aclamado espontaneamente pela comunidade cristã como bispo, missão que exercerá até à morte.
Martinho do mundo
O nome Martinho tornou-se depois muito comum na Europa, quer no nome das igrejas e paróquias - na Europa são 11 000 paróquias, em França são cerca de 3 500 -, nomes de localidades - em França são 485 -, quer como nome de pessoa - Martim, Martins, Martinho / Martinha -, em português, ou equivalentes, numa boa parte dos países da Europa desde a Polónia e a Hungria até à Alemanha, à Inglaterra e à Itália, mas sobretudo em França, naturalmente. Uma das mais antigas igrejas inglesas está dedicada a São Martinho, em Cantuária. O monge agostinho Martinho Lutero, mais tarde fundador da reforma protestante, recebeu esse nome no baptismo e ainda hoje Martinho é quase o único nome diferentes nos títulos das igrejas protestantes que habitualmente escolhem os nomes dos 4 evangelistas: S. Mateus, S. Marcos, S. Lucas ou S. João.
Até ao século IV todos os santos tinham sido mártires, São Martinho é o primeiro que morre de morte natural depois de uma longa vida dedicada à divulgação e aprofundamento da fé em Cristo, à criação e acompanhando de inúmeras paróquias rurais, à construção de igrejas e fundação de mosteiros / eremitérios em que os cristãos viviam, meditavam e rezavam solitariamente, apenas tomando as refeições em comum, e ninguém possuía nada como seu.
No calendário dos trabalhos agrícolas e nas tradições populares, o dia de São Martinho ficará associado à apanha das castanhas, assadas e comidas em comum: “magusto”, e, nas adegas é altura de provar o “vinho novo”, ou ainda na forma de “água-pé” ou de “jeropiga”.
Um dos provérbios açorianos associado a estas tradições diz assim: São Martinho bispo, São Martinho papa, São Martinho rapa, o que recorda também que no antigo calendário católico os dias 11 e 12 são dedicados uma a São Martinho bispo de Tours, a 12 São Martinho I, papa, e a 13 se encerrarem as festas de São Martinho, muitas vezes celebradas durante 3 dias.
Feriado municipal - São Martinho
A vila de Torres Vedras passou a cidade em 2 de Março de 1979. Apesar de manter como oragos Santa Maria do Castelo e São Gonçalo de Lagos, a escolha da data das festas da cidade (e do feriado municipal) feita pela Assembleia Municipal em 1977 recaiu sobre São Martinho (de Tours), decisão que se manteve controversa durante muitos anos, perante as alternativas de São Gonçalo de Lagos (celebrado a 27 de Outubro), eleito padroeiro de Torres Vedras a 13 de Outubro de 1435, pelo Senado da Câmara, ou ainda São Pedro (celebrado a 29 de Junho), dia da feira anual da terra.
Em França, este dia é Feriado Nacional, não por haver milhares de freguesias e igrejas dedicadas a São Martinho, mas porque, em 1918, às 5 horas da madrugada, os representantes dos exércitos aliados e da Alemanha assinavam o armistício que pôs fim à 1ª Grande Guerra Mundial (1914-1918), a bordo de uma carruagem de comboio estacionada perto de Compiègne, em território francês, fixando a sua entrada em vigor para as 11 horas do mesmo dia.
Em Portugal o episódio da capa de São Martinho ficou na literatura com o Auto de São Martinho, escrito em 1504 por Gil Vicente e representado perante a “mui caridosa e devota senhora a rainha dona Lianor na igreja das Caldas, na procissão de Corpus Christi, sobre a caridade que o bem aventurado sam Martinho fez ao pobre quando partiu a capa.” A peça de devoção religiosa começa com a entrada do pobre lastimando a sua velhice, as doenças, desanimado da vida. Depois “vem sam Martinho cavaleiro com três pajes, (…)” que mantém um diálogo com o pobre, chegando à conclusão que não o pode socorrer de outra maneira que não seja partir a capa ao meio. “Enquanto sam Martinho com sua espada parte a capa, cantam uma prosa: Laus et honor tibi sit rex Christe Redemptor.” Como outros textos de Gil Vicente e de outros escritores do seu tempo [reinados de D. João II, D. Manuel e D. João III], a obra foi escrita e representada em castelhano, o que não a tornava difícil de perceber para o público que também muitas vezes usava as línguas portuguesa e castelhana com mais à vontade que hoje. É um auto muito curto que o próprio Gil Vicente justifica assim: “Nam foi mais porque foi pedida muito tarde.”
Encontramos a peça inteira no volume I das Obras de Gil Vicente, disponível na Biblioteca.
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| As Obras de Gil Vicente |
Para saber muitas outras coisa sobre São Martinho encontramos na Biblioteca
- as Enciclopédias Verbo, Larousse e The new Caxton.
No Arquivo Municipal do município podemos aproveitar os apontamentos (n.º 36) sobre São Gonçalo de Lagos (clicar para ter acesso ao documento on line) e sua escolha como padroeiro de Torres Vedras.
Na Net encontramos ainda muitas informações de que destacamos o blogue desde há vários anos inteiramente dedicado a São Martinho (clicar para ter acesso ao blogue on line), e que contém referências ao dia, às tradições, à vida, aos provérbios, ao uso dos nomes e dos lugares, às imagens, entre outras.
Na história da arte uma das telas conhecidas é São Martinho e o pedinte, do pintor espanhol de origem grega, El Greco, pintada entre 1597 e 1599, exposta na National Gallery of Art (clicar para ter acesso à página do museu), um dos principais museus da cidade de Washington, nos EUA. Procurar por "Saint Martin and the Beggar".
Uma nota final para lembrar que quase duzentos anos depois de São Martinho de Tours, no tempo dos reis Suevos, também um outro santo com o nome de Martinho, e igualmente nascido na Panónia, por um feliz encontro viria a ser Bispo de Braga, uma das mais importantes dioceses da península ibérica, como Toledo, fundador um mosteiro em Dume (uma freguesia do concelho de Braga) e autor de várias obras religiosas e filosóficas - São Martinho de Dume (século VI).




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