sábado, 23 de abril de 2011

A refeição e a Páscoa

A alimentação é uma necessidade de todos os seres vivos. Algumas refeições diária nas comunidades humanas têm uma enorme importância social, mas as memórias colectivas destacam algumas com significados que ultrapassam muito os alimentos presentes.
A celebração da Páscoa como um acto de memória da intervenção divina num acontecimento decisivo para o povo de Israel remonta à saída do Egipto das tribos de Israel conduzidas por Moisés.
Antes dessa época já os pastores nómadas festejavam a chegada da Primavera com uma refeição comum, em que o alimento principal seria carne assada de um animal dos rebanhos.
A história da saída do Egipto - casa de escravatura -, o êxodo das tribos de Israel ou a passagem a caminho da Terra prometida é descrita no livro do Êxodo - o segundo livro da lei judaica ou ‘Tora’ -, como uma libertação dum povo oprimido.
Antes, os patriarcas desde Abraão (que deixou a Mesopotâmia em meados do século XIX antes de Cristo) tinham vivido na região de Canann; é já na velhice do patriarca Jacob que ele e os seus filhos vão viver para o Egipto, onde havia abundância de cereais, aceitando o convite do seu filho José, nessa altura já vizir do país, por delegação do próprio faraó - esta a história narrada no final do livro do Génesis, o primeiro livro da lei judaica ou ‘Tora’.
Segue-se um período de prosperidade para as tribos de Israel cuja população aumenta mais que a população do país, até que os faraós resolvem obrigá-los a trabalhos forçados, e assim foram construídas as grandes cidades de armazéns e entrepostos comerciais de Pitom e Ramsés (residência do faraó Ramsés II no delta do rio Nilo) no século XIII antes de Cristo.
A história da missão de Moisés e os conflitos com o faraó, a que se seguem as ‘pragas lançados por Javé’ sobre os egípcios, é contada nos primeiros capítulos do livro do ‘Êxodo’. Quando finalmente o Faraó aceita a saída das tribos os acontecimentos precipitam-se: Javé comunica a Moisés e seu irmão Aarão que a partir de então “Este mês (Abib - o “mês das espigas maduras”) passará a ser o primeiro o ano” e ao 10º dia cada família deve tomar um cordeiro ou um cabrito, “sem defeito, macho e com um ano de idade”. Guardado até ao entardecer do 14º quarto dia, o animal escolhido será imolado, assado ao fogo e comido com pães sem fermento - os pães ázimos [em hebraico: matzot] - e ervas amargas. Com o sangue do animal escolhido embeberão um ramo de hissope (uma planta aromática usada em rituais de purificação) com o qual hão-de aspergir as ombreiras e a verga da porta da casa onde a família ou famílias se reuniram para a última ceia no país dos faraós. A cerimódia da refeição em comum decorrerá com um ritual prório de alguém que está pronto para partir para uma longa viagem, “com os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão”, comendo apressadamente, não deixando qualquer resto de comida. “É uma Páscoa em honra de Senhor.” (Ex 12, 1-12) A história ocorreu em meados do mesmo século XIII a.C..
Esta festa anual é designada pela palavra hebraica ‘pésah’ ou ‘pessach’, habitualmente indicada como significando “passagem” mas aqui (Ex 12,11 e 23) poderá ser também com o sentido de “saltar”; pois o texto explicita que o Senhor passará nessa noite através do Egipto para flagelar os primogénitos das famílias e animais do país, mas vendo o sangue na porta da casa passará adiante, com quem salta uma linha de uma lista.
A palavra ‘pésah’ é traduzida pelos gregos para ‘páskha’ e depois pelos romanos com o substantivo feminino ‘pascha’, e, através do império romano, passado à cultura ocidental e à língua portuguesa onde aparece escrita já nos séculos XII e XII como ‘pascoa’, ‘pascua’ ou ‘pasqua’.
O mês ‘Abib’ do calendário lunar hebraico (cada mês começa na Lua Nova) passará depois do êxodo a chamar-se mês ‘Nisan’, por influência do calendário lunar do império da Babilónia onde se chamava ‘Nisanu’, associada também ao equinócio da primavera. A páscoa judaica celebra-se assim no 14º dia do mês de Nisan (que este ano começou a 3 de Abril com a Lua Nova), dia da Lua Cheia, e a festa continua por 7 dias, este ano de 2011 de 19 a 26 de Abril.
Os rituais desta celebração típica do povo de Israel são pormenorizados depois noutros documentos religiosos.
A páscoa é um momento de reunião de familiares e amigos, momento de uma refeição comemorativa e de aprendizagem para os mais novos que não viveram os momentos originais.
A distribuição do pão ázimo às crianças (matzot), o único tipo de pão que se pode comer durante os 7 dias da celebração da páscoa - pormenor de uma iluminura de um manuscrito hebraico, em pergaminho, do princípio do século XIV, escola catalã, actualmente na Biblioteca Britânica, em Londres
Quando Cristo assume a missão de salvar os filhos de Adão, cumpre rigorosamente as leis em vigor, tal como sua mãe Maria antes dele, e os pais dela ainda antes sempre tinha feito desde pequeninos. Assim os preparativos para a Páscoa e a reunião de todos os discípulos para uma refeição são contados pelos quatro evangelhos da bíblia católica - Mt 26, Mr 14, Lc 22 e Jo 13 a 16 (a versão mais diferente de todos, como um longo hino de 4 capítulos à verdade central da religião, às mensagens centrais do seu testamento, da herança que quer transmitir) - com um novo pormenor - o momento em que Jesus, assumindo a postura e o comportamento de escravo lava os pés dos seus 12 companheiros.
Pormenor de uma iluminura medieval com o lava-pés e a última ceia - Codex Bruchsal 1, Evangeliário de Speyerer, encomendado por Conrad IV de Tann, bispo de Speyerer, e realizada por volta de 1120; Biblioteca Badische Landesbibliothek, na cidade alemã de Karlsruhe
É uma quinta-feira, ao fim do dia. O dia de sexta será o dia da paixão de Cristo, morte e enterro. O sábado foi o dia de descanso, um ritual semanal para os judeus, e no dia seguinte ocorre a ressurreição de Cristo, ao ‘terceiro dia’ contado à maneira romana, incluindo o dia inicial e o final. Os discípulos instituirão esse dia da ressurreição como o dogma central da religião e a festa central do calendário litúrgico. A sua celebração é sempre no dia seguinte ao sábado judaico que passarão a designar como ‘dia do senhor’ - “dies dominica” na língua latina do império romano que então integrava também a Galileia e a Judeia e com um representante local do imperador - o célebre governador Pilatos -. Do latim passou à língua portuguesa como ‘Domingo’.
A última ceia, pormenor de um vitral da catedral de Notre Dame de cidade de Chartres, em França, executado por volta de 1150
A Páscoa cristã celebra-se assim no primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do equinócio da primavera, estabelecida como ocorrendo a 21 de março. Este ano a primeira Lua Cheia depois do equinócio da primavera ocorreu esta semana a 18 de Abril e portanto a festa da Páscoa é no domingo seguinte, 24 de Abril.
A refeição de Cristo com os doze, ceia por ser depois do pôr-do-sol, ou a ‘última ceia’, como ficou na tradição, tornou-se então a festa central da religião cristã, com o momento central na instituição da eucaristia em memória da partilha do pão e do vinho assumidos por Cristo como o seu corpo e o seu sangue.
A imaginação desta cena vai ficar também nas artes plásticas dos países cristianizados, a partir do império romano, como o mais antigo modelo e o mais repetido das cenas da vida de Cristo na arte cristã.


'A última ceia' - mosaico da basílica de Santo Apolinário, o novo, na cidade de Ravena, em Itália, dedicada ao ‘Salvador’, edificada no final do século V, durante o reinado de Teodorico e parcialmente redecorada no início do século seguinte sob o domínio do império bizantino.
O imagem dos peixes no centro da mesa da última ceia é outro símbolo do próprio Cristo, pois em grego, a língua dominante na parte oriental do império romano, a palavra ‘peixe’ é composta pelas mesmas letras das iniciais da expressão religiosa “Jesus Cristo filho de Deus Salvador”.
Os símbolos associados incluirão sempre uma refeição à volta de uma mesa, pão, vinho, ou os seus equivalentes ‘trigo’ e ‘uvas’,
Modelo da custódia mandada executar
pela princesa Maria Francisca Benedita (1746-1829),
no início do século XIX,
actualmente no Museu do Centro de Apoio Social de Runa, Cas Runa,
 originariamente designado por Real Asilo dos Inválidos Militares em Runa




Pormenor da custódia da princesa Maria francisca Benedita com as espigas de trigo (topázio), os cachos de uvas (ametistas), e o cordeiro do Apocalipse sobre o livro dos 7 selos que serão sucessivamente quebrados para revelarem o fim dos tempos
mas a paixão de Cristo também vai aparecer simbolizada no cordeiro pascal, vítima inocente que se oferece para salvação universal.
'O cordeiro pascal' de Josefa de Óbidos (Josefa de Aiala Figueira) (1630-1684), óleo sobre tela, da década de 1660 a 1670, Museu Regional, Évora
Desde as representações em mosaicos à maneira romana, em todas as épocas ou estilos até hoje os mais variados artistas interpretaram esse momento da última ceia, apresentando-as com as características do tempo em que viviam e as preocupações pessoais com a mensagem central. O modelo de Leonardo da Vinci, pintado em fresco no refeitório dos padres dominicanos de Santa Maria delle Grazie em Milão, talvez seja o mais copiado, reproduzido e reinterpretado na história da arte.
'A última ceia' - pintura a óleo sobre madeira de Francisco Henrique (14??-1518), por volta do ano 1508, actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa
A refeição de Emaús, que acontece na tarde do dia da ressurreição, recorda como dois discípulos reconhecem Cristo pela bênção e partilha do pão e do vinho, e é também outra imagem frequente na história da arte associada à Páscoa.
A refeição em Emaús, pormenor da pintura de Caravaggio (1571-1810), óleo sobre tela, executada entre 1596 e 1602, Galeria Nacional da cidade de Londres
A ressurreição de Cristo é a chave da páscoa cristã, mas a memória colectiva recorda-a na celebração aos domingos de uma cerimónia litúrgica que inclui o momento da última ceia da benção e partilha do pão e do vinho.
Retomando a ideia inicial: todos precisamos de nos alimentar mas algumas refeições diárias nas comunidades humanas têm uma enorme importância social que as memórias colectivas destacam com significados e sentidos que ultrapassam muito os alimentos e as pessoas presentes.

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