A celebração da Páscoa como um acto de memória da intervenção divina num acontecimento decisivo para o povo de Israel remonta à saída do Egipto das tribos de Israel conduzidas por Moisés.
Antes dessa época já os pastores nómadas festejavam a chegada da Primavera com uma refeição comum, em que o alimento principal seria carne assada de um animal dos rebanhos.
A história da saída do Egipto - casa de escravatura -, o êxodo das tribos de Israel ou a passagem a caminho da Terra prometida é descrita no livro do Êxodo - o segundo livro da lei judaica ou ‘Tora’ -, como uma libertação dum povo oprimido.
Antes, os patriarcas desde Abraão (que deixou a Mesopotâmia em meados do século XIX antes de Cristo) tinham vivido na região de Canann; é já na velhice do patriarca Jacob que ele e os seus filhos vão viver para o Egipto, onde havia abundância de cereais, aceitando o convite do seu filho José, nessa altura já vizir do país, por delegação do próprio faraó - esta a história narrada no final do livro do Génesis, o primeiro livro da lei judaica ou ‘Tora’.
Segue-se um período de prosperidade para as tribos de Israel cuja população aumenta mais que a população do país, até que os faraós resolvem obrigá-los a trabalhos forçados, e assim foram construídas as grandes cidades de armazéns e entrepostos comerciais de Pitom e Ramsés (residência do faraó Ramsés II no delta do rio Nilo) no século XIII antes de Cristo.
A história da missão de Moisés e os conflitos com o faraó, a que se seguem as ‘pragas lançados por Javé’ sobre os egípcios, é contada nos primeiros capítulos do livro do ‘Êxodo’. Quando finalmente o Faraó aceita a saída das tribos os acontecimentos precipitam-se: Javé comunica a Moisés e seu irmão Aarão que a partir de então “Este mês (Abib - o “mês das espigas maduras”) passará a ser o primeiro o ano” e ao 10º dia cada família deve tomar um cordeiro ou um cabrito, “sem defeito, macho e com um ano de idade”. Guardado até ao entardecer do 14º quarto dia, o animal escolhido será imolado, assado ao fogo e comido com pães sem fermento - os pães ázimos [em hebraico: matzot] - e ervas amargas. Com o sangue do animal escolhido embeberão um ramo de hissope (uma planta aromática usada em rituais de purificação) com o qual hão-de aspergir as ombreiras e a verga da porta da casa onde a família ou famílias se reuniram para a última ceia no país dos faraós. A cerimódia da refeição em comum decorrerá com um ritual prório de alguém que está pronto para partir para uma longa viagem, “com os rins cingidos, as sandálias nos pés e o bordão na mão”, comendo apressadamente, não deixando qualquer resto de comida. “É uma Páscoa em honra de Senhor.” (Ex 12, 1-12) A história ocorreu em meados do mesmo século XIII a.C..
Esta festa anual é designada pela palavra hebraica ‘pésah’ ou ‘pessach’, habitualmente indicada como significando “passagem” mas aqui (Ex 12,11 e 23) poderá ser também com o sentido de “saltar”; pois o texto explicita que o Senhor passará nessa noite através do Egipto para flagelar os primogénitos das famílias e animais do país, mas vendo o sangue na porta da casa passará adiante, com quem salta uma linha de uma lista.
A palavra ‘pésah’ é traduzida pelos gregos para ‘páskha’ e depois pelos romanos com o substantivo feminino ‘pascha’, e, através do império romano, passado à cultura ocidental e à língua portuguesa onde aparece escrita já nos séculos XII e XII como ‘pascoa’, ‘pascua’ ou ‘pasqua’.
O mês ‘Abib’ do calendário lunar hebraico (cada mês começa na Lua Nova) passará depois do êxodo a chamar-se mês ‘Nisan’, por influência do calendário lunar do império da Babilónia onde se chamava ‘Nisanu’, associada também ao equinócio da primavera. A páscoa judaica celebra-se assim no 14º dia do mês de Nisan (que este ano começou a 3 de Abril com a Lua Nova), dia da Lua Cheia, e a festa continua por 7 dias, este ano de 2011 de 19 a 26 de Abril.
Os rituais desta celebração típica do povo de Israel são pormenorizados depois noutros documentos religiosos.
A páscoa é um momento de reunião de familiares e amigos, momento de uma refeição comemorativa e de aprendizagem para os mais novos que não viveram os momentos originais.
Quando Cristo assume a missão de salvar os filhos de Adão, cumpre rigorosamente as leis em vigor, tal como sua mãe Maria antes dele, e os pais dela ainda antes sempre tinha feito desde pequeninos. Assim os preparativos para a Páscoa e a reunião de todos os discípulos para uma refeição são contados pelos quatro evangelhos da bíblia católica - Mt 26, Mr 14, Lc 22 e Jo 13 a 16 (a versão mais diferente de todos, como um longo hino de 4 capítulos à verdade central da religião, às mensagens centrais do seu testamento, da herança que quer transmitir) - com um novo pormenor - o momento em que Jesus, assumindo a postura e o comportamento de escravo lava os pés dos seus 12 companheiros.
É uma quinta-feira, ao fim do dia. O dia de sexta será o dia da paixão de Cristo, morte e enterro. O sábado foi o dia de descanso, um ritual semanal para os judeus, e no dia seguinte ocorre a ressurreição de Cristo, ao ‘terceiro dia’ contado à maneira romana, incluindo o dia inicial e o final. Os discípulos instituirão esse dia da ressurreição como o dogma central da religião e a festa central do calendário litúrgico. A sua celebração é sempre no dia seguinte ao sábado judaico que passarão a designar como ‘dia do senhor’ - “dies dominica” na língua latina do império romano que então integrava também a Galileia e a Judeia e com um representante local do imperador - o célebre governador Pilatos -. Do latim passou à língua portuguesa como ‘Domingo’.
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| A última ceia, pormenor de um vitral da catedral de Notre Dame de cidade de Chartres, em França, executado por volta de 1150 |
A refeição de Cristo com os doze, ceia por ser depois do pôr-do-sol, ou a ‘última ceia’, como ficou na tradição, tornou-se então a festa central da religião cristã, com o momento central na instituição da eucaristia em memória da partilha do pão e do vinho assumidos por Cristo como o seu corpo e o seu sangue.
A imaginação desta cena vai ficar também nas artes plásticas dos países cristianizados, a partir do império romano, como o mais antigo modelo e o mais repetido das cenas da vida de Cristo na arte cristã.
Os símbolos associados incluirão sempre uma refeição à volta de uma mesa, pão, vinho, ou os seus equivalentes ‘trigo’ e ‘uvas’,
mas a paixão de Cristo também vai aparecer simbolizada no cordeiro pascal, vítima inocente que se oferece para salvação universal.
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| 'O cordeiro pascal' de Josefa de Óbidos (Josefa de Aiala Figueira) (1630-1684), óleo sobre tela, da década de 1660 a 1670, Museu Regional, Évora |
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| 'A última ceia' - pintura a óleo sobre madeira de Francisco Henrique (14??-1518), por volta do ano 1508, actualmente no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa |
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| A refeição em Emaús, pormenor da pintura de Caravaggio (1571-1810), óleo sobre tela, executada entre 1596 e 1602, Galeria Nacional da cidade de Londres |
Retomando a ideia inicial: todos precisamos de nos alimentar mas algumas refeições diárias nas comunidades humanas têm uma enorme importância social que as memórias colectivas destacam com significados e sentidos que ultrapassam muito os alimentos e as pessoas presentes.








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