terça-feira, 11 de maio de 2010

(introdução ao quotidiano) por Herberto Helder

Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um pedaço do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto. Acontecimentos, seres, objectos, lugares. A coluna vertebral disto tudo, a posição vertical. Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa. Trata-se de uma fé antípoda. Porque o erro pode estar em mover-se com os pés e pôr o chapéu na cabeça. De qualquer maneira é magnífica a delicadeza de uma flor debaixo e por fora de terra. Bem: pode agarrar-se num espelho e colocá-lo em frente das coisas. Onde era esquerdo fica direito e vice-versa. Ou pode aparecer tudo negro. Porque as coisas são negras. Dormimos ou estamos acordados. Atenção. É uma espécie de espectáculo. Vem anunciado nos jornais. Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo. Sim, na cabeça. Chama-se malícia ou intenção.

Herberto Helder, in Photomaton & Vox, Lisboa: Assírio & Alvim

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