segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Texto de Inês Martins Mota - 10ºC

3º Prémio do Concurso de Escrita da Biblioteca da Escola Secundária Henriques Nogueira
Tema: Tenho medo de mim própria
Categoria: Ensino Secundário


«Luz apagada…Silêncio, calma. Estou deitada, como se fosse um objecto morto. Estou no centro cuidadosamente posicionada. A luz gradualmente sobe iluminando inicialmente a minha sapatilha de pontas do pé esquerdo, que está energeticamente esticado. O direito está para trás, formando uma espargata formidável. A luz vai abrangendo o meu corpo até chegar à minha cara. Levanto-me dramaticamente e começo a saltar, a fazer piruetas. Uma dança que não tinha aprendido. Tinha nascido em mim. Mas os meus pés, as minhas mãos e os meus fiéis amigos de pontas sabiam-na de cor e não me deixavam ficar mal. Olhar fixo, semblante transparente, sempre assim até ao final e depois mostrar o maior sorriso enquanto recebia aplausos. Mas ia olhando em volta: nada de público, nada de música. Apenas eu e o estúdio de Ballet completamente vazio. Ecooso. Agora todo o estúdio estava iluminado apesar da luz fraca. Após uma pirueta cuidadosamente trabalhada, paro em frente ao espelho. Ali estou eu. Exactamente igual ao que sou. Mas tenho medo, pavor ao reflexo. Não, ao reflexo não! Tenho medo de mim.
Continuo com o meu cabelo indomável, curto e desgrenhado, flexível como sempre foi, e que de certa forma me agrada, pois não tenho de o apanhar. Mas agora ele transmitia-me uma diversão que tinha medo que me contagiasse.
Os meus olhos verde esmeralda, sempre desconfiados, pestanejavam brilhantes, apaixonados. Os meus lábios rosados estavam rasgados num sorriso brilhante e sedutor. Sem dúvida era o meu reflexo. Mas tinha medo daquele eu. De mim própria. De repente o meu reflexo acenou e o seu maillot rosa como o meu e as suas sapatilhas de pontas gastas como as minhas, passaram a ser de um dourado brilhante, atractivo. Um tutu comprido, brilhante e dourado, completava o conjunto de uma bailarina de recital. Collant dourado suave e sapatilhas de ponta dourado vivo. Chamavam a atenção. O meu cabelo continuava desgrenhado e os meus olhos e o meu sorriso permaneciam marotos. O meu reflexo começou a dançar e afastei-me com frio. O reflexo passou o vidro e agora caminhava em minha direcção. Estendeu-me a mão. Havia muitas coisas que eu podia ter feito. Mas o meu medo converteu-se no meu braço e na minha mão e estendi-lha também, agarrando-a. Ela agarrou com firmeza o meu pulso e lançou-me em direcção ao espelho, no qual entrei, caindo. O reflexo também entrou e começaram a espalhar-se cores à nossa volta. De repente, voltámos a estar no estúdio de ballet. Eu permanecia sentada e atordoada com medo do que me pudesse acontecer. O meu reflexo começou a dançar delicada e divertidamente à minha volta, tocando na barra de exercícios. Ao tocar-lhe, infinitas bailarinas, totalmente iguais a mim, posicionaram-se milimetricamente iguais na barra, executando os mesmos exercícios que o meu reflexo. Estavam todas de rosa, exceptuando o meu reflexo com o seu belo fato dourado. 1,2,3, todas pulavam, levantavam a perna, rodavam. Subitamente o meu reflexo parou e chamou-me para que fizesse o mesmo. A minha expressão era incrédula e desconfiada. Levantei-me vagarosamente a tremer. Achava que o meu reflexo estava louco, ou melhor, que eu estava louca. Coloquei-me a seu lado e tentei posicionar-me igual a ele: os seus braços estavam abertos e suaves, o pé esquerdo estava dobrado para fora e esticado, o direito atrás da perna esquerda, esticado para o lado direito. Depois olhei, à espera dos passos para imitar. As 1000 bailarinas atrás de nós também permaneciam à espera. Comecei a franzir as sobrancelhas e o reflexo imitou-me. Coloquei a mão na cabeça e ele fez o mesmo. Comecei a perceber que estava a imitar-me. Comecei a executar simples passos de dança e ele fez o mesmo, juntamente com as bailarinas. Depois elevei a perna no ar e fiquei à espera que o reflexo e as bailarinas fizessem o mesmo. Estava petrificado. Uni os pés e comecei a olhar com curiosidade. Assustou-me, soltando um berro propositado. Começou a saltar e a dar piruetas sem complexos. Decidi segui-lo e ser louca como ele. Louca não, divertida. Percebi que este era o mundo de que eu tinha medo. O mundo divertido e alegre, saudável e cheio de sustos e brincadeiras. Percebi que tinha medo de mim própria. De ser eu própria. De ser divertida e assustadora. De só esperar aplausos no fim. Por que não durante todo o espectáculo que afinal de contas é a vida? Por que esperar os aplausos para o fim, na Morte, quando já não tiver sorrisos para os receber? A minha postura enquanto dançava com o reflexo, ia-se assemelhando a ele. Foi aí que as bailarinas repetitivas se uniram numa só e se desvaneceram, que as cores voltaram a misturar-se deixando-me no nada e que o meu reflexo me abandonou, empurrando-me com força e partindo o vidro. Tinha voltado ao mundo onde vivia: opressivo, exaustivo. Que só esperava os aplausos no fim. Deixei-me estar deitada e fechei os olhos, voltando a abri-los quando acordei do meu sonho. Tinha voltado ao meu estúdio iluminado pelo dia, com as minhas colegas bailarinas, cada uma diferente da outra e a minha mestre de dança estava a olhar para mim furiosa:
- Inês! Acorda para o mundo real!
- Acabei de acordar, madame.
Olhei para o espelho e sorri. Eu tinha medo de mim. Eu tenho medo de mim própria. E é assim que tem de ser.
O meu reflexo decorado de dourado olhava para mim com orgulho e ambição. Nunca deixando aquele sorriso contagiante.

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